Um Diário De Uma Alma - Assembleia De Todos Os Santos


Cheguei até grandes portões de grade de ouro puro. Ultrapassei-as ao lado de Radamanto e Uriel. Logo vi; todos os santos que um dia vi em pinturas e imagens, santos que nem conhecia, vi anjos da guarda, querubins, toda a hierarquia celestial estava presente lá junto de São Pedro com a chave do céu junto ao seu peito, a Virgem e Deus.
Eu não conseguia ver seu rosto, e isso importava algo? Eu estava presente a Ele, pura luz e salvação. E, por mais que Ele brilhasse; sua luz não me cegava. Queria me aproximar, pedir-lhe, implorar-lhe a salvação de Kaique... Sei que eu continuava egoísta, mas se justo eu estava ali e fui perdoada, por que ele não poderia ser também?
Essa pergunta me inquietava. Olhei a serenidade da Virgem Maria, quis ser como ela. Dar minha vida a Deus como ela fez. Mas eu não sirvo para ser serva do Senhor sem seguir o deus que vive dentro de mim até depois de morta: meu egoísmo.
A Virgem sorriu a mim. Seu sorriso aquietou meu coração partido. Seu semblante de paz me dava vontade de abraçá-la e pedir-lhe perdão por ser uma filha pródiga.
- Comecemos. – disse Deus aos santos que me olhavam, uns me repugnando, outros me perdoando. – Diga o que tens a me dizer filha.
- Eu só quero pedir-lhe... Não! Implorar-lhe a salvação de Kaique! – disse.
- Impossível! Como você ousa manchar o céu com os crimes desse assassino? Além do mais, ele pecou ainda mais contra o Espírito Santo se suicidando. Não sei se você lembra esta matéria de sua catequese, mas suicídio é um pecado imperdoável. – disse um dos santos que me olhava com discriminação.
- Mas também me ensinaram que todo o pecado, por mais imperdoável que pareça, tem seu perdão. Basta ter arrependimento e fé.
- Coisa que seu namorado não tem. – retrucou o santo.
Olhei-o. Ele me fitava com desprezo, não acreditava que fazia aquilo por amor. Virei os olhos ao Pai e falei:
- Por que eu? Por que justo eu fui salva? Eu pequei mais contra o Espírito Santo do que o próprio Kaique! Você sabe. Você me conhece mais do que a mim mesma. Sabe de meus pensamentos, minhas dores, o que tentei por muitas vezes fazer... Por que eu? É injusto! Você é o Pai da justiça, do perdão e da liberdade. Faça a justiça, perdoe mais este filho e liberte-o das amarras do pecado. Deixe-o vir, por favor... – terminei de cabisbaixo, me controlando para não chorar.
- Tudo o que fizeras filha, você não teve coragem de ir até o final com tais pecados. Por isso que fora perdoada e ele não. – disse a Mãe Virgem.
- Coragem eu tive, Mãe. Só não executava porque eu acho injusto que as pessoas que amo sofram por uma burrice minha. – falei enquanto as primeiras lágrimas escorriam pelo meu rosto.
- Este pensamento te salvou. – explicou-me a Mãe com um sorriso sereno.
- Vocês... Vocês fazem-nos acreditar na salvação. Tudo que ele fizera fora antes de nos conhecer. Se eu realmente sou um espírito de luz, eu apenas o guiava para tirá-lo da escuridão, esta seria minha missão. Mas fora incompleta. Me mataram antes de firmá-lo na luz. – disse levantando o rosto para que eles vissem minhas lágrimas – Sim, ele se matou. Isso é um pecado imperdoável, eu sei. Mas ele se matou na esperança de nos encontrarmos, de que ele consiga ver a luz que vira em mim novamente, ele se matou para ter paz, eu sei. Eu o conheço mais do que a todos aqui presentes.
Todos começaram a falar. Quem era eu para falar que conhecia mais alguém do que o próprio Criador?
- Tudo bem... – disse o Pai e todos se aquietaram. – Dar-lhe-ei uma missão. Você, como um espírito de luz, será enviada ao inferno para salvá-lo do julgamento de Minos e voltar ultrapassando todos os círculos do inferno e purgatório até chegares ao céu.
Sorri em agradecimento.
- Porém, você terá apenas 5 dias celestiais para completares a missão, caso contrário, ele ficará no seu devido lugar no inferno e você ficará no purgatório, pensando na insolência e pedindo perdão por ela.
Assenti.
- Mais algo, Pai? – perguntei de cabisbaixo.
- Ele não te reconhecerá até chegares ao céu. Você se chamará Beatriz perante ele e sua história será a de uma suicida que fora salva, como seus pais acreditam. – completou o Pai.
- Sim... – disse um pouco triste. Ele não saberia quem eu era... Mesmo assim, eu tinha que salvá-lo.
- Radamanto te acompanhará até o inferno, depois disso, sua missão prosseguirá, mas você sozinha sem ajuda alguma.
- Sim... – assenti.
- Pergunte. – disse Ele lendo meus pensamentos.
- Como verei que se passaram 5 dias celestiais? Aqui não amanhece, entardece ou anoitece! – falei.
- Tome esta ampulheta, ela tem o tempo exato de horas que você terá para ultrapassar os círculos. – disse a Virgem se aproximando de mim e colocando um pequeno relógio de ampulheta em meu pulso. – Só você poderá vê-la. – completou a Mãe respondendo minhas perguntas mentais.
- Obrigada. – disse a Mãe. – Obrigada Pai pelo seu perdão e pela sua salvação. – agradeci ao Senhor.
- Vá em paz! – disse o Pai.
Fui acompanhada de Radamanto até os portões de ouro. Estava feliz, mas ainda via o chão de algodão. De que importa? Logo o veria! Logo meu infinito teria nome e local exato.
Assim que ultrapassei o portão, desci.

Continua...

Ana Luiza Pereira


3 comentários:

kaique Bruno Boga disse...

quase chorei com isso, vc tinha razão, vc não deveria ter lido pra mim... sua voz...

não devo continuar, não quero nem pensar na continuação :S

te amo Ninha ♥

Vitor disse...

Ótimo, ótimo!
Está ficando cada vez mais bonito e melhor :D

Nelsonjd disse...

Ain! *O* Quero mais mais mais. Tah mto bom *O*

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