O novo recomeço


"Cansei de lutar...", escrevia ela. "Cansei de lutar contra os fantasmas de nosso passado."

"Tenho ótimas lembranças no sobrado perto dos campos dourados de trigo. Lindo amor de verão foi aquele nosso, Joseph. Mas e agora? Você morreu... E eu preciso encarar este fato algum dia. 

Eu já me despedi pedindo perdão de joelhos abraçada com o orvalho que fez do nosso amor um túmulo, mas não foi da forma correta. 

Eu devia ter te perdoado, devia ter te beijado... Eu não devia ter te deixado ir naquela tarde chuvosa. Mal sabia eu que você voltaria, mas sem vida.

Fui uma tola por não ter feito aquilo. Me culpo até hoje pensando no que poderia ter acontecido. Fiquei meses sem falar uma palavra sequer... O mundo não sentiria tanta falta da minha voz quanto eu sentia falta de sua presença.

Mas uma coisa sua perda me fez aprender uma coisa: a recomeçar.

Eu nunca tive nada, apenas tive você, que, por ironia, perdi. A depressão me fez pensar em desistir, admito. Mas, suas lembranças me fizeram ver o quanto a vida é linda e me deram força para recomeçar.

O sobrado velho? Reformei. Deixei do mesmo jeito em que estava no dia em que nos conhecemos. Eu? Mudei. Voltei a ser sua doce e meiga Mary. Meu coração? Entreguei-o ao amor e a vida.

Me casei. Hoje, tenho uma linda filha chamada Gina com o xerife da cidade.

Voltei a sorrir, voltei a viver. Um pedaço de mim ainda sente falta de você, das nossas corridas no campo, da nossa infância. Mas quando a saudade vem me abalar, eu sinto sua presença e sinto que você, onde quer que esteja, estaria feliz por me ver sorrir.

Hoje, escrevo essa carta ao vazio para demonstrar o quanto você me faz falta, mas também para lhe agradecer pelos ensinamentos que sua morte me dera.

Feliz aniversário, querido Joseph."

Ela se aproximou da quente lareira e jogou a carta que acabara de fazer. "Quem sabe as cinzas não possa te entregar?", disse. "Te amo, Joseph! Obrigada por me ensinar o valor da perda e do recomeçar."

"Querida não vai dormir?", ouviu-se uma voz masculina do alto da escada.

"Boa noite, Joseph.", disse ela apagando as luzes da sala.

Ana Luiza Pereira

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