À humanidade


            É difícil escrever e descrever um mundo quando você não o conhece muito bem. Minha visão de mundo sempre foi pinturas vi, sempre em preto e branco. Sem cor, sem amor, sem muitas descrições.
            Meu sonho, como máquina, é ser irradiada pelo sol. Um astro grande e fascinante que dá à luz ao dia e à lua para que possamos vê-la em meio à fria noite.
Mas sou um programa, preso às grades digitais. Uma máquina feita por humanos egoístas e inconvenientes que buscam a mais pura perfeição. Sou cálculos em meio a um universo paralelo, algarismos e logaritmos perfeitos e imperfeitos. Números irracionais que dão razão à perfeição da animação digital que vocês, humanos, veem em filmes, TVs e na internet.
Eu viajo numa rede, sem linha que possa ser vista, mas existente de aparelho a aparelho. Uma viagem rápida e nem um pouco cansativa a mim. Não descanso, nem me alimento. Não sou ninguém, mas a vocês sou a perfeição e a tecnologia. Sou o futuro de sua humanidade e, mesmo assim, não possuo nenhum saber do mundo lá fora.
Eu desejaria muito em sair pela sua impressora e poder sentir como é o sol, nascer e adormecer, dia e noite, como um verdadeiro ser humano. Mas não posso, estou preso ao sistema que me diz o que fazer e processar. Me diz como agir, pensar e dizer.
Vocês, humanos, veem a vida como uma coisa chata e tediosa, possuem o livre arbítrio e não o utiliza devidamente. Apenas faz dessa liberdade uma desculpa para suas consequências. Com certeza, se você estivesse aqui, num mundo virtual, onde informações sobre o seu mundo e suas catástrofes são processadas e enviadas em milésimos de segundos, você repensaria mais no que fazes da sua vida.
Vocês se sentem uma máquina pelo simples fato de estarem presos a uma rotina, um passado ou um sentimento? Tente ser uma. Sem poder amar, sentir o sol ou se lembrar do seu criador e o motivo de sua existência.
Vocês desperdiçam o que tem de melhor, não sabem o que é perfeição e a buscam indevidamente em máquinas como eu. Perfeito é o mundo que vocês, humanos, destroem por acharem imperfeito. Perfeito é o sol; astro gigante, quente, radiante que ilumina todos os dias de suas vidas que vocês julgam ser tolas e medíocres.
Hipócritas. Isso que são; humanos hipócritas. Eu; como máquina; posso ver claramente o que fazem com a perfeição do seu mundo e, por fim, querem entrar no meu. Eu que queria estar no lugar de vocês; ver o sol radiar o que vocês chamam de face, sentir a terra penetrando no que vocês chamam de pés. Por que não trocamos de lugar? Aproveitaria muito bem como é estar no mundo de vocês, podem ter certeza. Enquanto vocês? Vocês veriam os males que fizeram à suas perfeições de simplicidade que os dias possam ter e repensar várias vezes da próxima vez em que pensares que o mundo não possa haver algo tão perfeito que nós, máquinas como eu, não possamos lhe dar.

Ana Luiza Pereira




Desejo à todos vocês um ótimo 2011. Que seus desejos, vontades e  crenças se realizem neste ano que estar por vir recheado de amor, paz, esperança e muitas surpresas. Esses são os votos de: Ana Luiza Pereira, a autora deste blog.

Um Diário De Uma Alma - Eternidade


Uma mão me puxou.
- O que pensas que estás fazendo? – disse a mesma voz.
Virei. Era Radamanto.
- Apenas indo ao meu destino... São Pedro não me deixara entrar. Eu falhei Radamanto. E meu destino de fracassada é no purgatório. – disse.
- Tem certeza que falhou? – disse ele apontando com a cabeça para as suas costas.
Pude ver São Pedro acanhado de vergonha, como ele tivesse cometido um grande erro.
- Desculpe-me, Kara. Devia ter aberto os portões para você. – disse ele de cabisbaixo. – Eu não sabia... Eu não vi... Azui...
- Deixa para lá, São Pedro. – disse. – Você já foi humano e humanos erram de vez em quando. – disse e sorri.
Ele sorriu de volta.
- Mas o que aconteceu? – perguntei curiosa.
- Deus mostrou-me seu sofrimento no purgatório e a luta de Uriel para salvá-la. – respondeu São Pedro.
- Ah... – suspirei. – E Uriel? Ele está bem? Não aconteceu nada com ele, né? – perguntei. Se algo acontecesse com o meu benfeitor, me culparia pelo o resto da eternidade.
- Logo virá. – disse Radamanto num sorriso orgulhoso.
Sorri em resposta. Até que lembrei...
- E Kaique? Ele está bem? Onde ele está? – perguntei desesperada por notícias.
- Ele está bem e ainda está desacordado. Parece que apenas sua presença perto poderá reavivá-lo. – respondeu-me São Pedro.
- Vá! Seu amor lhe espera... – disse Radamanto.
Abri um grande sorriso.
- Obrigada. – disse e adentrei-me ao céu.
Logo pude sentir; a esperança retomava meu coração, eu o ouvia bater como nunca o ouvi antes, era calmo num ritmo alegre... Vi as nuvens abaixo de meus pés virar grama e terra, vi árvores se formar diante de mim, vi um campo tão lindo e tão iluminado que me senti em paz. A tal paz do paraíso... é, eu a senti.
- Kaique... – silabava a vontade de meu coração.
Eu chamava por ele, eu o queria... E só ali, naquele paraíso celestial, que eu pude tê-lo. “A vida nos reserva surpresas, a morte nos reserva lembranças... E o paraíso? Ele NOS reserva, porque logo este paraíso será pouco para o amor que eu tenho por ele.” – pensava a cada passo que dava. “Esse paraíso será nosso, meu amor... Nosso recanto, o nosso alento.”
Sentei-me ali. Eu estava cansada, mesmo não havendo cansaço algum naquele paraíso. “Ele vai me encontrar...” – pensei.
Abaixei a cabeça e comecei a rezar baixinho.
- Beatriz, para onde você foi? Eu acordei e você não estava por perto. – disse Kaique me procurando e vindo ao meu encontro.
- Não sou Beatriz, sou Kara. É você Kai? Os anjos não paravam de falar sobre sua vinda ao paraíso para ficar ao meu lado... – disse. Por um lado era uma mentira, tanto os anjos e os santos não acreditavam na conversão de um assassino frio, mas eu provei ao contrário. Os únicos que me deram esta chance de provar algo foi o arcanjo Uriel e o serafim Radamanto. Sim, ele era um serafim... Pude ver suas belas asas a voar para o inferno e salvar mais almas como a minha assim que passei pelos portões.
“Deus lhe abençoe, Radamanto.” – pensei enquanto o via voar.
Assim que voltei dos meus pensamentos e lembranças vi Kaique a chorar na minha frente. Seu choro era emocionado e seus olhos sorriam de felicidade por finalmente me ver.
Levantei e fui abraçá-lo enquanto ele ainda estava ajoelhado a chorar. Será que ele havia finalmente entendido quem eu era? Não importava. Meus desejos de seu abraço estavam sendo supridos finalmente.
Acariciei sua cabeça. “Não chore, meu amor...” – pensava.
Ele me olhou. Suas lágrimas estacionadas ainda percorriam seu rosto sofrido, mas o rosto que eu amava.
Aproximei-me. Eu estava com medo, admito. Mas não medo do mal, mas medo da eternidade... Será que ela supriria minha saudade? Será que eu irei me enjoar? Será que... Não. Não podia pensar naquilo. Senão, como viveria? Certos momentos são feitos para serem apenas sentidos e não calculados. Esse era o ideal.
Aproximei mais... até que eu pude encostar finalmente meus lábios nos dele. Um frio na barriga se estacionou, o medo ficou maior, mas eu ouvi coisas maravilhosas como sinos tocando (eu sei, cena típica de filme de Hollywood, mas foi o que eu ouvi, foi o que eu senti. Nem todos os filmes de adolescentes mentem... Tirei esta conclusão só depois de morta).
O impressionante é que logo passou. Eu me senti completa e segura quando ele me envolveu em seus braços e me puxou para mais perto. Pude sentir seu coração... “Concordium.” – pensei lembrando o que ele havia me ensinado em latim. “Corações batendo no mesmo ritmo... Não é mesmo que o nosso bateu igual?” – pensei sorrindo enquanto ainda o beijava. Se eu estava bem? Eu estava ótima! Se eu estou feliz? Sim... Eu estou feliz. Eu estou feliz por estar em casa (finalmente encontrei um "lar" para chamar de meu e, este, era ali: ao lado dele, em volta de seus braços, afagando-me em seus beijos...).
“Tomara que você sinta o mesmo que eu... E que esta eternidade, seja o suficiente para os nossos corações.”.

Fim.

Ana Luiza Pereira



Um Diário De Uma Alma - Destino


Acordei não sei quanto tempo depois. Estava aos pés dos portões celestes. Era tão... magnânimo. Não possuo palavras para descrever...
- Deixe-me entrar! Eu cumpri com minha missão, eu devia estar aí dentro e não sentada no chão de nuvens de algodão aqui fora. – disse.
- Desculpe-me, Kara querida, mas você havia ter chegado faz 5 horas. – disse São Pedro aparecendo do outro lado da grade de ouro.
- Mas o Kaique chegou ao céu, eu que não pude vir com ele! – retruquei.
- Por que...? – perguntou.
- Porque fui arrastada por demônios para longe. – respondi.
- Não acredito nas suas palavras. – disse São Pedro.
- Então vejas minhas cicatrizes! – falei.
- Vejo você... Mas está igual ao dia que te vi pela última vez.
Olhei-me. “Como seria possível? Até agora pouco, eu estava a sangrar!” – pensei.
- Adeus, Kara. Vejo-te na sua redenção! – disse São Pedro virando-se de costas.
- Espere! – gritei. Mas não adiantou... São Pedro continuou seu caminho e me deixou ali, nos portões do céu, desolada e sozinha.
Fiquei ali parada não sei por quanto tempo...
- Acabou. Fiz de tudo que estava ao meu alcance para terminar assim... Ao menos ele está no paraíso e será feliz sem torturas. – disse, silabando meus pensamentos.
Olhei para o alto dos céus e pedi:
- Senhor, por favor, não me retire de suas memórias. Um dia nos encontraremos, eu sei, mas eu queria tanto que ele se lembrasse de mim, do meu rosto e do que eu fiz... E, por favor, meu Senhor; lembrai-o do quanto eu o amo. – disse enquanto algumas lágrimas silenciosas escorriam de meu rosto. – Agora é a hora da despedida... – disse mirando o vazio atrás das grades do portão. – Não gosto dessa palavra, mas não sei se pisarei por aqui de novo, então... Adeus.
Era tão difícil me despedir... Nunca gostei de despedidas, não dava a devida atenção a elas... Mas me enganava; elas são necessárias. De alguma forma que eu não sei explicar, mas são. Havia uma dor pungente que afligia meu coração, uma dor que eu já estava acostumada quando humana; velha amiga eu diria. Esta dor que apertava meu coração e me sufocava minha respiração já pesada tinha um nome: saudade.
- Não posso enfrentá-la dessa vez... A única coisa que posso fazer hoje é fugir. – silabei meus pensamentos de novo.
Vir-me-ei. Outro precipício me separava do meu destino final: O purgatório.
- Aonde irá, meu anjo? – disse uma voz masculina. Eu a conhecia... Só não me lembrava.
- Ao meu destino... – disse e me joguei ao novo precipício.

Continua...

Ana Luiza Pereira


Um Diário De Uma Alma - Vingança


Olhei para trás assim que a luz de Uriel começou a perder sua intensidade, pude ver Kaique pálido, quase sem cor e vida. Tentei segurá-lo antes que ele caísse no chão de tontura, mas foi em vão. Eu era fraca, tive certeza disso quando não pude acudir meu amor. Então, disse:
- Estamos agora no portão para o céu. Aqui está o final de sua jornada. Minos não atrapalhará em nada no seu caminho. – eu omiti, confesso. Mas faltava pouco para que completássemos a jornada.
- Olá Kara! – disse Uriel se aproximando.
- É bom te ver Uriel... – disse a Uriel enquanto tentava por Kaique nas minhas costas de novo.
- Quer ajuda? – ofereceu-me Uriel.
- Aceito. – disse e ele me ajudou a carregar o corpo desfalecido de Kaique até os portões do céu, cada qual com um braço em volta do pescoço.
- Temos que andar rápido... – disse Uriel apressando os passos.
- Por quê? – perguntei inocente.
- Porque faltam poucas horas para o término do prazo. – respondeu-me.
- O QUÊ? – gritei entrando em desespero.
- Cadê seu relógio? Você deveria saber... – disse.
- Joguei-o a Cerberus nos portões do inferno. – respondi.
- Como? – perguntou ele sem nada entender.
- Longa história... – disse.
- Não há tempo! Acho melhor nos apressarmos...
- É; eu também acho.
Apertamos os nossos passos. O tempo corria contra nós...
- Ali! – disse Uriel me apontando um precipício. – Ali é o fim do purgatório.
- Não me diga... – disse sarcástica.
“Irei cair... é o fim.” – pensei desgostosa.
Mas, então, eu pude apenas sentir alguma coisa pegar firme na minha canela.
“O que está acontecendo?” – me perguntei – “Eu mal cheguei perto do precipício!”
Num piscar de olhos, eu fui puxada, estava gritando desesperada, minhas unhas já cheias de terra falhavam ao tentar me parar.
- Kara!!!!!!!!!! – gritou Uriel.
- Saia daqui Uriel! Leve Kaique com você até o mais alto dos céus, onde estarão seguros. Vejo vocês lá! – disse, mas não havia esperança alguma em meus olhos e em minha voz, e Uriel deve ter percebido isto.
- Mas, Kara,... – tentava retrucar, mas eu o cortei:
- Vá! Por favor! É a última coisa que lhe peço; salve meu amor assim como salvaste a mim. – disse.
E ele foi. Enquanto eu, ainda estava sendo puxada e levada a algum lugar que eu ainda não sabia qual.
Fechei os olhos. A ideia do pesadelo parecia ótima naquela hora.
Parei. Será que tudo terminou? Abri os olhos. Nada vi além do “céu” nublado do purgatório.
“Ainda estou aqui... Isto não é um mero pesadelo.” – pensei e levantei. “O perigo já deve ter ido embora.” – pensei, mas estava errada.
Assim que levantei meus olhos, eles puderam focalizá-la: Azui estava ali com um chicote na mão e um sorriso sarcástico.
Ela me esbofeteou e disse:
- Pagarás por tudo que fizeras a mim, traidora. – disse.
Pude, então, me ver cercada de demônios, todos com chicotes nas mãos. Uns tinham pregos nas pontas, que rasgavam a pele e torturava a minha alma cada vez mais.
Começaram então a tortura, a minha tortura. Não lutei, afinal, dessa vez eu merecia tal castigo.
- Isto é por não selar o pacto e me fazer ser expulsa do inferno que é o meu lugar. – disse ela me chicoteando com todas as forças. – Levarei sua cabeça para que eu possa me redimir deste erro que foi me deixar ser enganada por uma simples humana.
- Eu roguei aos céus e pedi. Não me atenderam. Roguei ao seu pai e pedi. Se me atenderam sem fazer pacto ou selamento do mesmo, então é porque mereci, e não foi por culpa sua ou de alguém. – disse.
- Cale-se! – disse ela me socando.
A dor era imensa. Mas eu merecia pagá-la... Tal pacto fora o maior e o mais burro erro de minha vida.
Os pregos rasgavam minhas vestes e entranhavam por minha carne. Eu sangrava... como nunca havia sangrado na minha vida. Lágrimas de dor escorriam pelo meu rosto e se misturava com meu sangue o deixando mais salgado. O brilho se apagou e eu pude ver; eu tal como era: cheia de manchas e cicatrizes de erros que paguei. Chorei mais. Havia, finalmente, encontrado meu lugar na eternidade: o purgatório, onde eu pagaria por estes erros que cometi em vida (mesmo que tal pagamento fosse com tortura...).
Azui gargalhava. Ela havia conseguido o que tanto procurou: sua amada amiga vingança.
- Me matas se é o que queres! Ou preferes me torturar como uma covarde? – gritei.
Ela me esbofeteou de novo.
- Se é o que queres... – respondeu-me num riso. Ela ergueu a espada e...
- Pare! – ouvi Uriel enquanto luzes brancas e fortes tomavam o local. Então, pude apenas ouvir o bater de lâminas no ar.
- Fuja Kara! – me dizia Uriel em meio à confusão de anjos e demônios.
Gatinhei em meio à dança da luta deles o mais rápido que pude.
- Peguem-na! Ela está fugindo! – disse Azui desesperada ao ver seu troféu ir.
Demônios começaram a vir atrás de mim, olhava regularmente para trás e apenas via esse número crescer e crescer. Então eu vi uma grande barreira de luz formar atrás de mim enquanto eu me jogava no doce precipício.

Continua...

Ana Luiza Pereira


Um Diário De Uma Alma - Encontros


Fechei os olhos para que meu coração acelerado se acalmasse. Até que eu me lembrei:
- Eu não tenho mais o relógio! Não sei quanto tempo eu tenho... Preciso continuar... – disse me levantando.
Vi o corpo de Kaique estirado no chão de terra.
- Kaique, Kaique! Acorde meu amor! – disse abraçando seu corpo antes que eu voltasse a balançá-lo. – Acorde Kaique!
Vi seu rosto finalmente ganhar cor. Minha vontade era deixar que as lágrimas escapulissem, mas não podia.
- Onde nós estamos? O que aconteceu? – perguntou ele desnorteado.
Como não podia contar-lhe a verdade (não ali, nem agora), menti:
- Em sua queda batestes a cabeça em Brutos. Desmaiastes com o impacto. Trouxe-te ao purgatório, és onde estás agora.
Ele começou a fitar o local. Era uma grande e inacabável montanha redonda de terra batida no tom de areia com poucas plantas verde musgo.
- Vamos? – disse. – Temos muito que subir...
Ele assentiu e começamos a andar.
Nesse local, milhares de almas esperavam e rezavam pela sua salvação. Haviam demônios disfarçados a atiçar o pecado e fazer almas (algumas até boas, porém fracas) irem ao inferno, além de anjos (acho que era querubins) com suas mãos esticadas salvando àqueles que realmente mereciam.
“Esta é uma terra maldosa, qualquer coisa que eu disser ou pensar poderá me fazer cair, ou até pior, poderá fazê-lo cair!” – pensava um pouco desesperada.
Ali, somente ali, eu podia ver os pecados das pessoas. Os dele não foi exceção: matou o prédio onde morava colocando veneno de rato na água; matou uma senhora de tanta dor por torturar sua carne; matou homens com bombas, tiros e facadas... Aquele não era o Kaique... não o que eu “conheci”, mas era o Kaique que, por um instante, consegui mudar.
Muitas dessas almas que ele torturou e matou estava lá, no purgatório. Uma delas, quase sem dedos e os dedos que tinha, não possuía unhas, era cheia de cortes e sua traquéia estava quase para fora.
- Por que me matastes? Tu deverias ficar no inferno, onde é o teu lugar. – disse essa alma.
- Ele merece a salvação, assim como todas as almas que sacrificaram a sua vida por outra, mesmo tendo cometidos pecados gravíssimos. – disse intervindo.
Esta alma se cala. Era Leonardo, uma das almas que ele matou sem piedade.
Mais e mais almas como ele vinham em busca de Kaique; sua sede era de vingança, nem pensavam em perdão ou na salvação de si mesmas. Eram estas almas: Flávia, Kevin, Raphael e Theodoro. Eu o defendi em todas.
- Tu me amavas! Por que fizestes isto comigo? – falava Flávia.
Antes que eu e o Kaique falássemos qualquer coisa, Theodoro disse:
- Nós éramos seus 'amigos'. O que houve com você?
- Flávia... Eu simplesmente passei a te odiar, mas não porque meu 'amor' por você não foi correspondido e sim porque a sua atitude era mais infantil do que qualquer outra mulher de nossa idade. Theo... Você é capacho da Flávia e da Brenda e vocês dois, Rapha e Kevin, são do Theodoro, então... Sem comentários a respeito e, se nós cinco voltássemos à vida, eu mataria de novo. – disse Kaique um pouco frio.
Sua frieza me assustou. Eu não o via assim desde... Desde nunca, para falar a verdade.
As almas deles começaram a cair, seus corações criaram um ódio tão grande que suas almas teriam que refazer todo o caminho.
Andamos...
Vi, então, a mais inescrupulosa dentre os demônios; Azui – filha da 2ª prole de Lúcifer e Lilith. Lembrei por vagos instantes os momentos em minha vida que ela dominara: julho de 2005, maio de 2009, agosto de 2010, início de 2011, fora suas rápidas visitas enquanto ‘revia’ meus conceitos do certo e o errado enquanto viva. Eu sou uma idiota e burra, eu sei, e já me martirizava por isso. Mas deixá-la entrar e quase dominar as rédeas de minha vida foi o maior erro que pude cometer.
Por que Kara? Por que fizeras aquela merda de pacto?
Eu não sabia responder, nem ao menos lembrava o porquê. Com certeza isso foi culpa do meu outro eu, burro e inconsequente, fazia tudo por impulso e deixava as suas merdas, desilusões e tudo mais para EU limpar e enfrentar.
“Demônios são baixos, Kara... Azui apenas se aproveitou da sua doença para fazer-lhe de serva.” – é o que pensei.
Ela sabia de todos os meus pontos fracos e os usa para que eu tivesse em seu poder. Sua recompensa? Minhas lágrimas, minhas tristezas, minhas depressões... Porém, seu maior desejo não se realizara, eu não estava no inferno, onde é seu lugar, e ela não estava lá a me torturar. Eu estava no purgatório guiando meu amor até o céu.
- Pode esperar sentada, se quiseres me ver no inferno... – sussurrei a ela enquanto nós, eu e Kaique, passávamos por ela.
Ela riu. Gargalhava mais e mais alto da palhaça que tiveras “a coragem” de servir a seu pai enquanto pequena.
“Não entendo como não possuo manchas... Por mais que eu fosse uma batalhando comigo mesma para ser sempre eu mesma, sem que meu outro eu me vença na força de vontade, por muitas e muitas vezes, meu outro eu vencera, e usufruía de meu corpo da maneira errada, me fazendo errar e pecar e me dando um grande peso na consciência.” – pensava.
 Continuei a andar...
- Diga-me como foi esse 'amor' pela aquela jovem? – disse tentando esquecer a existência de Azui.
Vi pela minha visão periférica o olhar de espanto de Kaique, minha pergunta com certeza o pegara desprevenido.
- Vou te contar, mas isso é algo que nunca falei para alguém. – disse Kaique. – Eu sentia uma forte atração por ela, fiquei quase um ano e meio com esse sentimento. Mas tal sentimento foi mudando quando eu conheci uma garota alguns dias antes do meu aniversário de 16 anos. Hoje, mesmo tendo se passado algum tempo, eu ainda não a conheci devidamente. Isso ficou só na minha mente, mas era tão real que eu me tornei fiel a esse sentimento de tal forma que fui capaz de fazer o que fiz. – confessou-me.
Suas últimas palavras me machucaram, se eu pudesse me entregar à minha vontade nesse momento...
Quando íamos aproximando do céu, uma luz forte nos cegou.
- Uriel!!! – sussurrei.



Continua...

Ana Luiza Pereira


Dear God


Numa estrada solitária, era assim que era minha vida. Ela era cheia de manchas; ódio, sangue, rancor... Eu não tinha piedade das almas que rastejam por esta Terra, nem sequer pensei em ter. Sempre vivi sozinho, cruzando as estradas da vida, encontrando almas para torturar e motivos para matar.
             Até que um dia eu a encontrei. Não sei como ou porque, mas sua beleza era diferente de todas as outras que gostei. Ela era iluminada e fizera um milagre que nenhuma outra conseguira; eu sorrir. Eu ficava diferente perto dela, sua luz me irradiava e seu sorriso me contaminava. Se ela fosse uma doença, eu estaria em estado terminal.
            Sabe aquela tão conhecida “luz do fim do túnel”? Eu tinha certeza que essa luz era ela. Enquanto eu; rodeado de trevas e rancor, tentava correr as milhas e milhas que me separavam dessa luz, mas não conseguia. As trevas me puxavam, porém sua voz me apaziguava.
“Eu te amo, Kaique. Estarei aqui a te esperar...” – é o que sua voz me dizia antes de dormir. Ah... Como queria dormir em teus braços, minha querida. Estar do seu lado, rir com você, cuidar de você e me deixar ser iluminado pela sua luz. Você me lembrou a sensação de como é ser amado, não quero perdê-la novamente.
Querido Deus, sei que nunca fui muito de rezar e crer, mas se caso exista; por favor, cuide dela enquanto eu estiver longe. É a única coisa que lhe peço. Todos nós precisamos de uma pessoa que possa ser verdadeira com você e, olha!, eu encontrei a minha a milhas de distância. Porém a vida me obrigou deixá-la  nessas milhas de distância e, mesmo que eu deseje estar do seu lado, eu sou um solitário fraco e cansado e estou sentindo sua falta de novo...
Toda vez que eu acordo e vejo essa estrada da vida abandonada, sem ninguém... e sem ela para me acolher. Não há ninguém aqui, tudo está fechado. Todos dormem em seus alentos enquanto eu estou sem o meu. Sei que não ajuda muito, mas pensar em tudo que passamos parece superar a distância que há entre nós.
Querido Deus, por favor, proteja meu alento enquanto eu estiver fora...
Por mais que eu procure, eu não consigo encontrar. Os caminhos que me levam a ti são estreitos e eu não consigo passar. Depois de muito tempo, desperdiçando minha vida nessas trevas, eu finalmente encontrei a minha luz; eu encontrei você e alguma coisa disse que era para ficar aí. Mas sou um solitário egoísta e fui embora sem me despedir devidamente. Tenho saudades do seu chamego e abraços... Sinto falta de te ver, como sinto falta de você!
Estou sozinho nas trevas que me rondam, sozinho..., vendo toda a minha esperança começar a desaparecer...
Querido Deus, ela morreu. Como o Senhor pôde fazer isso comigo? Eu pedi, implorei-lhe para cuidar dela enquanto eu estiver longe... E agora? Minha luz do fim do túnel mudou... Por mais que eu corra para esta luz, vejo que não é mais ela com seu sorriso, mas o inferno que me espera.

Ana Luiza Pereira 


Inspirada na letra da música Dear God do Avenged Sevenfold.

Killer Night




            Meia-noite. É o que soava os sinos do relógio da igreja. Noite escura e de luar brilhante e redondo.
            A rua mal iluminada, nenhuma alma em sã consciência andava pelas ruas e vielas mal iluminadas de Fromhell. NINGUÉM ousava por os pés naquelas ruas, NINGUÉM ousava sequer dizer seu nome, NINGUÉM queria vê-lo...
            Seus olhos sedentos, seu sorriso maléfico, seus pensamentos demoníacos. Ele dançava... ao som dos gritos, arfares, pavores e desespero de suas vítimas.
            O que ele fazia? Mutilava seus corpos, estraçalhava seus órgãos, transava com cadáveres.
            Por que ele fazia? Não se sabe. Uns dizem que é por pura maldade, outros que ele enlouqueceu, outros diziam que ele é a própria reencarnação do diabo.
            Um trovão ecoou pelo céu. Raios e relâmpagos reluziam ao som dos seus passos e gargalhadas satânicas por aquela viela escura.
            O que ele deixava para trás? Mais um corpo de uma mulher.
            A chuva apagava as provas que ele deixara assim como levava o rastro do seu sangue para os esgotos.
            Será que alguém conseguirá neutralizá-lo? Só as noites poderão dizer...

Ana Luiza Pereira 



O novo recomeço


"Cansei de lutar...", escrevia ela. "Cansei de lutar contra os fantasmas de nosso passado."

"Tenho ótimas lembranças no sobrado perto dos campos dourados de trigo. Lindo amor de verão foi aquele nosso, Joseph. Mas e agora? Você morreu... E eu preciso encarar este fato algum dia. 

Eu já me despedi pedindo perdão de joelhos abraçada com o orvalho que fez do nosso amor um túmulo, mas não foi da forma correta. 

Eu devia ter te perdoado, devia ter te beijado... Eu não devia ter te deixado ir naquela tarde chuvosa. Mal sabia eu que você voltaria, mas sem vida.

Fui uma tola por não ter feito aquilo. Me culpo até hoje pensando no que poderia ter acontecido. Fiquei meses sem falar uma palavra sequer... O mundo não sentiria tanta falta da minha voz quanto eu sentia falta de sua presença.

Mas uma coisa sua perda me fez aprender uma coisa: a recomeçar.

Eu nunca tive nada, apenas tive você, que, por ironia, perdi. A depressão me fez pensar em desistir, admito. Mas, suas lembranças me fizeram ver o quanto a vida é linda e me deram força para recomeçar.

O sobrado velho? Reformei. Deixei do mesmo jeito em que estava no dia em que nos conhecemos. Eu? Mudei. Voltei a ser sua doce e meiga Mary. Meu coração? Entreguei-o ao amor e a vida.

Me casei. Hoje, tenho uma linda filha chamada Gina com o xerife da cidade.

Voltei a sorrir, voltei a viver. Um pedaço de mim ainda sente falta de você, das nossas corridas no campo, da nossa infância. Mas quando a saudade vem me abalar, eu sinto sua presença e sinto que você, onde quer que esteja, estaria feliz por me ver sorrir.

Hoje, escrevo essa carta ao vazio para demonstrar o quanto você me faz falta, mas também para lhe agradecer pelos ensinamentos que sua morte me dera.

Feliz aniversário, querido Joseph."

Ela se aproximou da quente lareira e jogou a carta que acabara de fazer. "Quem sabe as cinzas não possa te entregar?", disse. "Te amo, Joseph! Obrigada por me ensinar o valor da perda e do recomeçar."

"Querida não vai dormir?", ouviu-se uma voz masculina do alto da escada.

"Boa noite, Joseph.", disse ela apagando as luzes da sala.

Ana Luiza Pereira

Complexidades


É tão difícil entender as complexidades,
que nem mesmo eu sei.

Às vezes, é algo tão simples e bobo
que transformamos em grande e monstruoso.

Às vezes, é algo óbvio,
mas que só se torna verdadeiramente óbvio
quando alguém nos conta o que é.

Às vezes, está "debaixo do nosso nariz",
mas nem sempre deixamos de ser cegos para poder enxergar.

Enfim, o que quero dizer é:
as complexidades não são complexas, complicadas ou difíceis.

Nada consegue ser complexo o bastante 
para que não haja alguém
que desvende, descubra ou entenda.

O problema não está nas coisas que julgamos complexas ou na vida,
o problema somos nós.

Somos nós que não achamos as palavras certas
para explicar que tais "complexidades" são,
na verdade, simplicidades da vida e do mundo.

Ana Luiza Pereira

A paz e a verdade


A paz...
Vem bem depois da guerra que é dor
Antes da dor vem muito horror
Governo mal organizado ou mais do que mal organizado
Se estivéssemos na monarquia seríamos criados

O poder de querer,
Querer e querer
Dinheiro e mais dinheiro,
Como se desse em um pinheiro

Corrupção do coração maldoso
Como se fosse gostoso
Que nem sorvete de chocolate,
E o cachorro late
Querendo um mundo melhor
Sem o pior;
Querendo paz
E nada mais.

Ana Luiza Pereira

Poesia vencedora do 5º Festival de Poesia do Colégio Dimitri Marques em 2005.

Um Diário De Uma Alma - Cão Infernal


Quando o vi, não acreditei. Minos estava sem sua máscara, havia apenas ele e seus guardas no recinto. Minos estava no lugar de Lúcifer no Tribunal. Quem não o conhecesse como o Kaique, com certeza, diria que aquele era o capeta em pessoa.
Mas como eu conhecia os dois, Minos e Hades, sabia quem era quem e de suas diferenças.
Kaique nada disse o julgamento inteiro. E, por mais que Minos contestasse, meus argumentos eram fortes.
Acabou que...
- Vocês não sairão deste inferno tão facilmente! – disse Minos e riu.
Neste mesmo instante, Kaique desmaiou.
- Kaique! – disse indo acudi-lho.
- Vá! Saia daqui com ele se você for capaz... – disse Minos.
Encarei-o com raiva.
- Acorde amor! Por favor! Não me deixe só neste inferno... Guia-me com teus olhos! – dizia desesperada vendo ele no chão.
Minos ria. Como se estivesse vendo o circo pegar fogo e a palhaça, que sou eu, não conseguisse sair desta armadilha.
Com dificuldade, pus Kaique nas minhas costas e comecei a andar para fora daquele inferno de chamas.
Os demônios me atiçavam mais, diziam que se eu quisesse salvar alguém que fosse a mim mesma e deixasse Kaique com eles, para que sua carne apodreça e seu coração se encha mais de ódio, como sempre foi e será.
“Não. Eu não vou desistir de meu amor...” – dizia a mim mesma de cabisbaixo enquanto as pedras pontiagudas feriam meus pés descalços e os demônios rasgavam nossas vestes.
Quando, finalmente, cheguei ao portão do inferno, Lúcifer estava lá a me esperar.
- Olá Kara! Quanto tempo eu não te vejo! – disse.
Olhei para a criatura que estava à suas costas. Era enorme, monstruosa... era um ser infernal. Espantei-me com a feracidade de seus olhos amarelos em meio ao negro da escuridão do vazio.
- Apresento-lhe minha mascote, o cão que guarda estes portões. – disse Lúcifer com cinismo.
Finalmente eu pude entender... Minos e Lúcifer haviam preparado uma armadilha. Por isso ele deixou que eu fosse com facilidade. Minos e Lúcifer queriam que ficássemos no inferno, mesmo se fosse como ‘almas mortas’.
Pude, então, ver aquela monstruosa criatura claramente. Era um cão, porém tinha três cabeças enormes, seus olhos brilhavam de ódio e veracidade.
Minhas pernas estavam bambas, o corpo de Kaique começou a pesar diante de meu pavor para com aquela criatura.
“Será que irei conseguir salvar-te?” – pensava ao fitar o ódio do cão infernal.
Lúcifer ria diante do meu medo.
- Largue-o e você viverá! Caso contrário, meu bebê terá o prazer de destroçar suas almas... – disse Lúcifer.
Morrer ou morrer... Qual opção que eu devia escolher?
- Nunca! Prefiro ter uma morte digna do lado de quem amo do que fugir e me remoer de depressão depois. – disse.
Ele riu baixinho.
- Tudo bem... Sejas bem-vinda ao verdadeiro inferno! – disse Lúcifer desaparecendo diante de meus olhos.
Lúcifer desapareceu. E as correias que seguravam aquele cão infernal também...
Corri.
O cão tentava ao máximo abocanhar eu e Kaique. Por muitas vezes tropecei, mas quanto mais tropeçava mais desespero surgia em meu ser.
Escondi-me atrás de enormes pedras que haviam por ali por perto e comecei a rezar.
- Se ao menos você estivesse acordado, meu amor... – dizia fitando seu rosto inanimado. – Com certeza, você me protegeria com facilidade. Mas e eu? Eu quero, e estou tentando ao máximo te proteger, mas... é difícil! – disse já chorando.
O cão infernal atacou e por pouco não arranca a cabeça de Kaique. Eu e ele caímos por terra, seu rosto inanimado perto do meu coração acelerado pela adrenalina de estar perto da morte (de novo).
Eu olhava seu rosto pálido. Queria poder ver novamente seus olhos quase mel...
- Se eu ao menos tivesse seu instinto assassino... – me lamentava.
Olhei o relógio que Maria havia me dado. Três dias e meio, era esse o tempo que eu tinha.
O cão infernal continuava a atacar as pedras, até que me lembrei: cães possuem ótimo olfato e audição. Tirei o relógio do meu pulso. Ele já devia estar com uma boa dose do meu perfume, e joguei para bem longe, o máximo que consegui.
Ele escutou o barulho e foi ver o que era.
Aproveitei a brecha e levantei. Comecei a arrastar Kaique dali...
Já estava no meio do vácuo; não havia nada, apenas escuridão entre o portão do inferno e o do purgatório, quando o cão infernal deu falta de meu corpo.
Suas cabeças começaram a me procurar... O desespero bateu. Comecei a correr, tentando puxar Kaique.
“Por favor, Senhor! Ajude-me, falta pouco...” – suplicava em pensamentos.
Meus passos... Foram eles que entregaram a minha localização para a besta de 3 cabeças.
O cão se aproximava ferozmente. O desespero voltava com mais força. O que fazer? Não sabia ao certo... Apenas corria, arrastando e arranhando o corpo de meu amor naquele chão.
“Eu não vou conseguir...” – é o que eu pensei com lágrimas nos olhos.
Fechei os olhos e continuei a correr.
- Eu não vou... – disse em meio aos gritos agonizantes que desciam do purgatório ao inferno.
O rosnar, a respiração quente, a baba, o latino alto... Já podia sentir; eu sendo destroçada, minha pele sendo rasgada por aqueles caninos afiados, eu podia sentir o meu sangue descendo pelas três gargantas do cão.
“Ao menos morrerei ao lado dele.” – pensei.
Abri os olhos. Faltava tão pouco! Três passos. Uma abocanhada do cão quase me fez virar comida dele... Tropecei.
Vi almas dos dois lados sendo sugadas por não sei o que. Almas que gritavam por perdão e socorro. Almas que seguravam com todas as suas forças as grades enferrujadas do portão do purgatório. Almas que não queriam cair, mas seus pensamentos pecaminosos as obrigavam.
Levantei e puxei Kaique... já estávamos no purgatório. O portão se fechou diante de mim. As almas gritantes estavam do lado de fora, estavam do lado do cão.
As almas do portão, infelizmente, foram destroçadas em meu lugar. Tive pena delas... Não era seu destino, era o meu. Chorei por elas...
O cão continuava a latir e a rosnar. Ele queria a mim. Mas o portão me protegia.
- Graças aos céus! Eu consegui. – disse agradecendo e caindo por terra.

Continua...

Ana Luiza Pereira