Sinto Sua Presença


O dia já começara assim: chuvoso, fechado. Mais parecia noite; as nuvens cobriam qualquer resquício de sol que o dia poderia ter. O vento gélido fazia que eu desejasse não sair da cama.
Mas não me contive. Não posso me dar esse luxo; precisava arrumar a casa, alimentar o cachorro, lavar a louça e estudar.
Sai da cama. O vento sorrateiro passava entre as frestas da porta e janela e eriçava sem aviso os pêlos do meu braço. Calcei a pantufa e palpei a cama, caçando por entre os cobertores meu celular com fone de ouvido. Assim que eu o achei, pus o fone no meu ouvido e coloquei a música no último volume.
Após uma boa despreguiçada, levantei. Fui ao banheiro, fiz o que tinha para fazer e fui arrumar a sala. O pano úmido que passei por entre os móveis já gelados congelava minha mão. Pensei por um segundo que meu sangue iria congelar, mas no fundo eu sabia que era exagero de minha parte.
Quando comecei a limpar a poeira das fotos antigas, uma música calma começou a tocar no meu celular. Foi quando a vi. Seus olhos pareciam saltar do retrato antigo e ficarem atentos a me fitar, como sempre fazia. Peguei a foto e fiquei segundos inteiros olhando-a.
Minha mente viajava entre minhas lembranças: me lembrei de quando pequena eu ficava a correr por entre a casa e ela, sempre preocupada, ia atrás e pedia-me que eu fosse mais devagar; lembrei de como ela almoçava: em pé com o prato na pia com o ouvido no radinho de pilha; lembrei que ela preparava meu leite de tarde enquanto eu me escondia e me fingia de morta; lembrei de sua paciência enquanto me ensinava a jogar buraco nas noites de sábado e de como roubava, me ajudando sempre a vencer senão eu chorava; lembrei de sua voz; lembrei de como ela me cobria para dormir; lembrei de meus beijos em sua bochecha macia; lembrei de como ela me consolava quando acordava em meio da noite assustada pois tivera pesadelos; lembrei de sua decadência e, fatalmente; lembrei do dia de sua morte.
Chorei. Ela ainda estava ali, no retrato, me fitando. Eu sentia falta de sua presença, de sua companhia. Eu senti falta daquele dia das crianças eternizado na foto que eu comprimia no meu corpo, o dia que ela, depois de ser avó e minha segunda mãe, também se tornara minha madrinha.
- Nem pude me despedir quando se foi... Me desculpe pelos meus erros, não posso ser perfeita! Não sei quais eram seus planos para mim, mas você sempre será minha ídolo, meu exemplo de vida e suas lembranças e ensinamentos serão meu alicerce. Te amarei para sempre, vovó – disse entre os soluços do choro.
Limpei as lágrimas sorrateiras e pus a foto no lugar. Depois disso, meu dia não fora mais um dia comum, eu a sentia do meu lado a me vigiar, como se a criança novamente corresse entre os corredores e ela pedisse calma.

Ana Luiza Pereira


4 comentários:

₣غĽΐρغ Ήغηяΐ XD disse...

Ainda não conheço a dor de perder alguem importante, mas espero ter a mesma força que você tem pra superar! É tão bom lembrar momentos assim, tão gostosos e marcantes... ^^
Sei que sua vó estará sempre ao seu lado, garanto que ela tinha e tem muito orgulho da neta!
Parabéns!!

Ps: Hehe, vc gosta mesmo do verbo "fitar"... XD

celi disse...

que lindo. Não posso sequer imaginar como é perder alguem tão querido...

kaique Bruno Boga disse...

Estava, no momento de minha leitura, chorando... simplesmente chorando e me lembrando do meu Avô que eu considerava-o pai! ele morreu ano passado, irão se fazer dois 2 de sua morte, mas as lembranças ficarão na minha mente para sempre,..., essa é uma situação gozada, pois ele sempre dizia para seus amigos(as) que eu era o filho dele!
PS.: César Castaldi você sempre vai ser o meu pai e avô e sempre, mas sempre mesmo, va ficar na minha mente!

colddoll disse...

serio,um dos melhores textos que ja li seu.

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